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Dados consultados às 17:16.

Setor Privado da América Latina Traça Caminhos para a Governança da Inteligência Artificial

Mobile Time Latinoamérica | As pequenas e médias empresas (PMEs) na América Latina estão buscando influenciar a regulamentação da inteligência artificial (IA) através de sua participação na governança desse setor. Um grupo formado por mais de 60 especialistas de Colômbia, Peru e Chile desenvolveu um plano regional com o objetivo de estabelecer fundamentos para a gestão dessa tecnologia.

Na última quinta-feira, 9 de abril, ocorreu a apresentação oficial da iniciativa na Câmara de Comércio de Bogotá. O projeto é coordenado pelo Centro Internacional para la Empresa Privada (CIPE), em colaboração com a Câmara Colombiana de Informática e Telecomunicações (CCIT), o Centro Nacional de Consultoria (CNC) e outros parceiros estratégicos da região, como o Comitê Colombiano da Câmara de Comércio Internacional (ICC), a Associação Chilena de Empresas de Tecnologia da Informação (ACTI), a ComexPerú e a Fundação Kodea do Chile.

A proposta inclui a criação de uma Plataforma Regional do Setor Privado sobre IA, que será implementada em uma fase inicial prevista para durar entre 12 e 18 meses. Essa plataforma não se limitará a ser uma ferramenta tecnológica, mas funcionará como um espaço para diálogo e coordenação entre empresas, governos e outros atores relevantes.

Fragmentação regional

O desenvolvimento do roteiro foi fundamentado em um diagnóstico que identificou os desafios enfrentados pelas PMEs em sua jornada de transformação digital. Esta análise foi realizada com apoio do Centro Nacional de Consultoria, inicialmente focando na Colômbia, para entender as dificuldades das empresas em integrar-se à economia digital.

“Identificamos deficiências desde empresas que mal utilizam o e-mail até aquelas que já implementaram inteligência empresarial. Durante essa análise, a inteligência artificial foi considerada apenas um subcapítulo no contexto da digitalização”, comentou Ángela María Vélez, diretora do CIPE Colômbia, em entrevista.

Simultaneamente, estudos semelhantes estavam sendo conduzidos no Chile e no Peru. “Essa abordagem nos possibilitou realizar um exercício piloto na região. Os três países apresentam cenários variados em termos democráticos, tecnológicos e empresariais, o que nos ajudou a compreender melhor nossas direções futuras”, acrescentou.

Após essa fase diagnóstica, o documento final foi elaborado com a contribuição de diversos parceiros através de esforços multissetoriais envolvendo os três países, contando com a participação de empresários, acadêmicos, especialistas técnicos e representantes governamentais.

O próximo passo envolve promover diálogos. “A falta de articulação tecnológica na região é evidente. Assim, nosso foco inicial deve ser estabelecer conversas para definir prioridades coletivamente ao invés de impor soluções”, esclareceu Vélez.

Cinco eixos para acelerar a IA

O roteiro é dividido em cinco pilares estratégicos:

  1. Princípios e autorregulação;
  2. Marcos técnicos;
  3. Cooperação regional e multissetorial;
  4. Desenvolvimento de capacidades;
  5. Acesso a financiamento;

Através desses pilares, a iniciativa visa estabelecer padrões comuns, fortalecer as capacidades existentes e facilitar uma adoção responsável da IA no continente.

Dentre as ações planejadas estão a criação da plataforma regional para diálogo, definição das prioridades em políticas públicas, realização de estudos sobre segurança econômica e expansão das oficinas para outros países como Argentina, Uruguai e Costa Rica.

<p“Em um cenário onde faltam articulações como observamos na Europa e Ásia, nosso primeiro passo deve ser reconhecer os elementos disponíveis e avançar juntos entre empresas e organizações”, destacou Vélez.

Ainda que reconheça que essa governança deve partir dos governos, no contexto latino-americano tem-se verificado o oposto: “É o setor privado que está liderando essa iniciativa. Portanto, precisamos trabalhar junto às PMEs para exigir respostas adequadas dos governos”, acrescentou.

A proposta ainda sugere que os governos estabeleçam diretrizes claras; promovam uma concorrência justa; protejam o uso responsável dos dados; e incentivem inovações nas empresas sem impor riscos excessivos.

Chile como líder

Dentre os desafios enfrentados na busca por uma trajetória clara para a IA na região estão a fragmentação das iniciativas e a ausência de coordenação entre os países. O Chile se destaca como o país mais avançado em termos regulatórios e adoção tecnológica entre os três mencionados; contudo, ainda apresenta lacunas significativas na aplicação prática dessas tecnologias.

Luz María García, diretora executiva da ACTI, atribui esse progresso ao fato de que: “O Chile acredita fortemente na colaboração entre setores público e privado. As conquistas do país são fruto desse trabalho conjunto desde o início, permitindo-nos desenvolver propostas com objetivos comuns como nossa Política Nacional de Inteligência Artificial.”

No entanto, García enfatiza que estar à frente também exige reflexão sobre as metas futuras e sobre qual será a verdadeira integração dessa tecnologia nos setores produtivos envolvidos.

Situação no Peru e Colômbia

No Peru, as dificuldades incluem consolidar um ecossistema colaborativo para IA no setor privado. Maite Vizcarra, presidente da Comissão de Inovação da Câmara de Comércio de Lima, ressalta que as PMEs foram pioneiras na adoção da IA no país mas carecem do conhecimento necessário para utilizá-la efetivamente.

“Hoje em dia, 70% das PMEs já experimentaram inteligência artificial: têm ciência da tecnologia existente e até exploraram suas funcionalidades porém não sabem exatamente como aplicá-las corretamente”, explicou Vizcarra. Isso evidencia uma necessidade urgente por capacitação adequada.

No contexto eleitoral atual do Peru, há planos para apresentar esse roteiro ao novo governo. “Pela primeira vez nas eleições peruanas houve discussões sobre inovação e IA. Pedimos aos candidatos que apresentassem propostas sobre as ações necessárias nesse campo. Esse é certamente um grande avanço”, concluiu Vizcarra.

No caso colombiano, questões como fragmentação do mercado tecnológico, escassez de mão-de-obra qualificada e baixa adoção da IA pelas empresas acendem um alerta para o setor privado em um país cuja economia depende fortemente das PMEs.

Pensamento Regional

Os criadores deste projeto acreditam que esse roteiro representa um ponto inicial fundamental para edificar uma estrutura de governança focada no setor privado com uma perspectiva regional baseada na colaboração mútua.

Através desta iniciativa conjunta entre CIPE e seus parceiros busca-se acelerar a conexão dos mercados digitais latino-americanos aproveitando ao máximo o potencial da inteligência artificial como motor propulsor do crescimento econômico, produtividade e inovação na região.