Onze colunistas do Mobile Time foram convidados para escrever um breve texto sobre temas que entendem importantes para serem debatidos em 2026 pela sociedade e particularmente pelo mercado de tecnologia. Veja abaixo as discussões propostas por cada um deles.
Rafael Pellon, advogado especializado em direito digital, sócio-fundador do Pellon de Lima Advogados e consultor jurídico do MEF
Rafael Pellon
Com a popularização no uso de robôs de inteligência artificial generativa as indústrias criativas enfrentam momentos de incerteza em 2026. Nas artes e música, no jornalismo, nas livrarias, nas redes sociais, na publicidade e no audiovisual há cada vez mais conteúdos sintéticos, produzidos em escala e com qualidade razoável, desafiando o que até ontem eram empresas líderes destas indústrias a serem mais rápidas, mais baratas e mais criativas, um desafio que parece insuperável diante da facilidade em engolir e regurgitar conteúdos os mais diversos, com cada vez mais qualidade. Ao longo de 2025 vimos a evolução cada vez mais rápida dos chatbots e robôs para produzirem vídeos, imagens e músicas que (quase) nos enganam, num fluxo alucinante para substituir a criatividade puramente humana.
Ainda não está claro e não sabemos se a popularização destas ferramentas irá provocar uma nova onda de criatividade pelo mundo ou arrebentar indústrias da economia criativa, desalojando profissionais de seus empregos ou os submetendo a serem meros revisores de prompts e criações produzidas em minutos, acabando com a aura de reconhecimento de criativos em todo o planeta. Antes reconhecidos por seu talento e inventividade, arriscam a se transformarem em curadores e usuários das plataformas que permitem inventar cada vez mais com menos esforço e expertise.
Será interessante acompanhar como as leis que regem as indústrias criativas serão atualizadas para reger este novo cenário, além da óbvia mudança de cultura que se avizinha na economia criativa como força motriz de entretenimento, marketing e consumo.
Ernesto Haikewitsch, diretor executivo da Mazaltech Consultores e diretor da associação Pagos
Ernesto Haikewitsch
A interface invisível: quando o app desaparece e a conversa vira experiência
A inovação tem um padrão recorrente: ela desmaterializa o que antes parecia sólido. Nokia, Blockbuster e Kodak caíram porque o hardware (telefone, loja física, filme) virou software (smartphone, streaming, foto digital). Depois, foi a vez dos objetos físicos virarem tokens digitais — cartões de crédito, ingressos, carteiras. Agora, a desmaterialização chega ao próprio app: a interface desaparece, e o que resta é a conversa. A grande tendência para 2026 é a desmaterialização do próprio aplicativo. Depois do “hardware invisível”, chega a vez da interface invisível. Em vez de abrir o app do banco, do varejo ou da companhia aérea, o usuário conversa com um agente de IA dentro da mensageria e resolve tudo ali — pedir um Pix por voz, pagar boleto por foto, acompanhar uma compra, renegociar um serviço. O que muda não é só o canal: muda o centro de gravidade da experiência, da navegação para a intenção. E, quando a conversa vira interface, distribuição, marca, conversão e atendimento passam a competir dentro do mesmo espaço — o que torna a mensageria a camada universal de interação. 2026 será o ano em que três forças irão convergir: a maturação da IA generativa (agentes capazes de executar tarefas complexas), a universalização de infraestruturas como Pix e WhatsApp no Brasil, e a validação comercial do modelo por players globais como o Alipay.
Os melhores benchmarks globais e locais já mostram o roteiro. O Alipay evoluiu de carteira digital para superapp de serviços cotidianos e, segundo a Ant Group, atende mais de 1 bilhão de usuários e 80 milhões de comerciantes — um ecossistema que normaliza pagar, comprar e acessar serviços sem “pular” entre aplicativos. O movimento vai além da China: o Alipay+ (plataforma para pagamentos cross-border) reportou crescimento forte de uso no exterior, mostrando como experiências integradas (pagamento + marketing + serviço) reduzem atrito e aumentam conversão. Nesses cases, apps são tratados como módulos, não como destino: o usuário não quer interface — quer resultado. No Brasil, o contexto é ainda mais explosivo: o WhatsApp tem mais de 120 milhões de usuários ativos, o Pix virou infraestrutura universal, e a IA generativa amadureceu rápido. Começam a surgir “apps que não parecem apps”, como a Magie, que transformou o WhatsApp em interface bancária e já movimentava R$ 140 milhões em menos de um ano, com evolução para patamares muito maiores em 2025. Mas o sinal mais forte é quando incumbentes adotam a lógica conversacional: Bradesco habilitou Pix pelo WhatsApp com a BIA (inclusive por voz), Banco do Brasil lançou Pix por imagem, Itaú oferece Pix no WhatsApp com ativação e limites, Jota explora pagamento por áudio, e o Magalu através da Lu no WhatsApp, começou como canal de pós-venda (status do pedido, nota fiscal, atualizações de entrega), mas o grande salto veio no final de 2025, quando foi lançado o “WhatsApp da Lu” como AI Commerce: a conversa passa a fazer a jornada completa — descoberta, recomendação, carrinho, pagamento no chat por Pix/cartão, acompanhamento — com interação multimodal (texto, áudio, imagem) e acesso ao catálogo do Magalu e dos sellers do marketplace. 2026 será o ano da virada porque a experimentação virou operação em escala: não são mais pilotos, são bilhões de reais transacionados e milhões de usuários atendidos exclusivamente por conversas.
A provocação final para 2026 é desconfortável (e necessária): se a relação com o cliente acontecer dentro de uma conversa mediada por IA, quem “possui” a experiência — seu app, seu agente, ou a plataforma de mensageria? Quem não responder isso rápido corre o risco de virar apenas “mais um fornecedor” num chat que ninguém lembra. O urgente em discutir isso agora é que as posições estão sendo definidas em 2026: empresas que tratarem a mensageria como “mais um canal” perderão relevância para aquelas que redesenharem toda a experiência em torno da intenção do usuário, não da navegação em interfaces. A janela para decidir se você será dono da conversa ou apenas um item dentro dela está se fechando. O que você acha?
James Görgen, especialista em políticas públicas e gestão governamental e autor do blog http://florestadigital.tec.br
Soberania digital e a capt








